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TEXTO DE ALEJANDRA HERNANDEZ MUÑOZ

As tramas do cotidiano de Jaci Matos
por Alejandra Hernández Muñoz*

 O collage, como procedimento artístico de elementos colados sobre um suporte pictórico, remonta à década de 1910, no contexto do cubismo. Diversos artistas de vanguarda desenvolveram suas possibilidades expressivas sob forma de papiers collés e montagens, em particular, as fotomontagens realizadas através da justaposição de imagens fotográficas. Avançando no campo tridimensional, a exemplo dos contrarelevos construtivistas, o collage deu origem à assemblage ou ensamblagem, modalidade de agregação escultórica de vários elementos, principalmente objetos encontrados de modo aleatório.

Os trabalhos de Jaci Matos se inserem formal e semanticamente nessa trajetória do collage, ora como composição bidimensional de texturas, ora como tramas ensambladas que se aventuram além do plano do suporte. Porém, aquilo que Picasso chamou de “pedras de toque da realidade” – os pedaços de tecido, jornal, madeira ou outro material no contexto de uma composição cubista –, aqui perdem seu caráter narrativo ou sugestivo de representação de algo concreto ou identificável. 

Os materiais utilizados por esta artista não são madeiras nobres; em geral, são coletadas de lixos específicos em contêineres de construção civil ou em descartes institucionais das redondezas das Escolas de Belas Artes ou de Teatro da “cidade da Bahia”, um exercício de resgate de modestas memórias contidas em pedaços de materiais fibrosos que algum dia foram aglomerados, compensados, tábuas e pranchas que alojaram fatos e atividades sob formas de mesas, divisórias, estantes, cadeiras, armários, palcos. É uma memória indiferente às grandes narrativas históricas. É uma poética que se alimenta do cotidiano intangível e corriqueiro afastado da grandiloqüência oficial e institucional.

Este processo artístico começa com “caixas anônimas”, exercícios tridimensionais feitos com madeiras encontradas no contexto restrito da EBA. Seguiram-se a série “Malocas”, experiências sobre tela inspiradas pela paisagem das favelas, que resgata uma textura peculiar presente nas paredes dos barracos sem, contudo, entrar num anedotismo descritivo. Nessa operação, que remete a algumas práticas da arte povera, resquícios de tinta acrílica mantém uma filiação com a pintura ao mesmo tempo em que avançam no campo tridimensional. Mais tarde, uma série de trabalhos sobre fundo vermelho se aproxima de uma sintaxe gráfica, onde cada tela pode remeter à forma de ideogramas ou à elementos de um alfabeto mironiano. Na trajetória de alternâncias entre tela e “eucatex” como suportes preferidos, a artista explora outras possibilidades com instalação de peças suspensas com tramas sobre vidro, enquanto experimenta variações de escala, desde “estudos” em pequenas dimensões ao grande formato incluindo operações de costuras e fendas no suporte.

As obras de Jaci Matos podem ser entendidas como etapas redentoras da metamorfose das fibras que, há não muito tempo, foram árvores e, após sua obsolescência declarada pelos modismos de consumo, pela falta de cuidados de manutenção ou pelos processos naturais de deterioração, agora descansam no suporte macio de uma tela. Estas obras constituem um tipo particular de natureza morta, uma variante do gênero tradicional num contexto antropizado no qual tudo já foi transformado e nada resta de natural. São composições que se afastam do discurso da reciclagem ou preocupação ambiental, assumindo a condição do perambular do urbanóide que extrai sua poética artística de um dia-a-dia aparentemente irrelevante, de materiais descartados, esgotados em sua função cotidiana, exauridos em seu valor estético de pulcra superfície, de integridade de resistência ou de capacidade de utilidade. 

Essas composições não contam historias: guardam uma memória cotidiana, preservam a lembrança de uma origem modesta, são texturas que escondem percursos de usos corriqueiros. O potencial das tramas de Jaci Matos reside na singeleza do seu caráter plástico e numa certa estética de “brutalismo doce” na qual o material se apresenta tal como é, protegido por um verniz que impede o processo da degradação que determinou seu descarte.


 

Alejandra Hernández Muñoz, uruguaia, residente em Salvador desde 1992, é arquiteta, mestre em Desenho Urbano e doutoranda em Urbanismo pelo PPGAU/UFBA. Desde 2002, é Professora de História da Arte da EBA/UFBA; tem diversos trabalhos de história e crítica de arte e arquitetura; foi curadora das mostras Pasqualino Romano Magnavita - 1946-2006: 60 anos de desenho de cidades (Galeria Cañizares EBA/UFBA, abr.2006), Visões do Labirinto (Casarão da EBA/UFBA, nov.2007), EBA 130 anos - Núcleo EBA Em Processos (Galeria ICBA, mar.2008) e Saccharum BA (MAM-BA, jun.2009), todas realizadas em Salvador.